terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Mais pura religião

Há uma semana tenho estado melancólico. Lembro-me bem. Era uma segunda-feira e o despertador tirava-me do sono para que iniciasse as tarefas do dia. Seu insistente chamado, diametralmente oposto ao canto das sereias, fosse pela hora em que tocava, fosse por seu ritmo compassado que ecoava a cadência das incessantes máquinas nas outroras fábricas inglesas do século XVIII, despertou em mim, contudo, o lento arrastar da prostração.

Quase um quadro kafkiano. Exceto por não ser eu um inseto, metamorfoseava-me a um eu-mesmo que se encontrava já longínquo de meu atual momento. O mavioso canto de meus lençóis vencera-me e fizeram-se eles um simbólico casulo a embrulhar-me as asas.

Desde então venho andando acompanhado deste taciturno e introspectivo ser que fui durante um bom tempo e que, por outro bom tempo, foi-me negado sê-lo. Negado fui de estar entristecido e isto foi-me mais penoso que o teria sido a própria tristeza. Estar triste sempre foi-me uma forma de navegar em direção à minha essência, de tapar as orelhas com cera, atar-me ao mastro da nau que, como em uma peregrinação, levar-me-ia ao oráculo em que, na forma mais pura de religião, poderia ouvir ao velho sábio que em mim habita.

Hoje furtivamente deitei nos ombros de meu pai e através desse gesto falou-me o velho sábio. Atavismos. A sabedoria concretamente manifesta em um ombro onde pude deitar cabeça e consciência. Pai e filho hierarquicamente dissolutos. O silêncio deste breve momento bastou.

Ouvi a voz eterna de Deus. Ela é muda.

5 comentários:

Angelo Augusto Paula disse...

Marejando aqui... Lindo é pouco... Não sabia que vc tinha um blog! Lindo, lindo, lindo!

Diogo Esteves disse...

como sempre seu texto me deixou aqui com cara de bobo, e o coração cheio de poesia... uma palavra: surreal!

Lex disse...

Angelo, a cozinha andou meio parada, mas está ansiando por novas canecas sobre a mesa.

Lex disse...

Diogo, rapaz, saudades de nossas poesias!

Diogo disse...

eu tbem... tava aqui com o livro da Adélia que vc me deu... mas o que mais gosto é da sua dedicatória! Sempre talhando com as palavras... parabéns!!!