segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.



A primeira estrofe de Autopsicografia, poema de Fernando Pessoa, traz a voz do texto a falar de seu autor. Esta voz, que conduz o leitor ao longo da obra, revela em seus primeiros versos que o poeta é um fingidor.

Fingir é um processo que envolve a falsidade, ou seja, em termos semióticos, é fazer com que algo pareça ser o que não é. Contudo, a dor sentida é verdadeira ("a dor que deveras sente"), ou seja, ela é e, por isso, não pode ser fingida. O poeta então, para que seja um fingidor, finge não a dor, mas quem a sente. Em outras palavras, o autor outorga à voz-condutora a faculdade de sentir a sua dor genuína de poeta. Como a voz é uma entidade virtual, a dor que lhe é permitida sentir assume também esse traço de virtualidade, passando a ser uma dor "fingida", já que ela parece ser verdadeira, mas não o é.

Os leitores, por sua vez, independente de quem sejam e do grau de envolvimento com o que lêem, se aprazem com a dor lida. No entanto, cabe distinguir dois tipos de leitores: aqueles que se contentam com uma leitura superficial do texto, chamados de leitores de primeiro nível, daqueles que mergulharão fundo no texto e buscarão desvendar o fingimento do poeta, conhecidos por leitores de segundo nível.

Partindo para uma compreensão mais aprofundada do poema, os leitores devem saber distinguir as duas dores, a fingida da sentida, e notar que ambas pertencem à esfera dos autores e não à sua. Todavia, a dor percebida pelos leitores também não pertence ao seu universo ("mas só a que eles não têm") figurando apenas no momento em que as duas entidades do discurso – voz e leitor – entram em sintonia. Neste ponto o leitor, por sentir momentaneamente uma dor que não é sua, também se torna um fingidor. Ele cede às artimanhas do poeta e põe-se apto a fruir o gozo estético da obra.

2 comentários:

sidnei disse...

Bemvindo ao primeiro capítulo do manual "Como ler poesia", By LEX!!!!!

Bruno Sanches disse...

Gostei muito do blog, belo design, bom conteúdo também.

Tenho um blog de frases, podemos fazer uma troca de links?

Entre em contato.

Um abraço;