segunda-feira, 2 de março de 2009

Despojos e espólios

O despertador do celular toca. Eram 8h20. Ufa! Hoje é domingo e não precisava se levantar tão cedo assim. Vira para o lado com a certeza de que só acordaria quando seus olhos insistissem em abrir.

Dito e feito. Passadas algumas horas, a coluna, que já não tinha a elasticidade de antes, implorava por um pouco de movimento, sem contar a sede e a bexiga cheia, resultado da noite de exageiros alcoólicos. Levantou-se e se dirigiu à cozinha para tomar seu desjejum e preparar o almoço: lasanha de berinjela e abobrinha ao molho béchamel.

Falando assim, parecia até difícil, mas não. Para o molho bastava manteiga, farinha, leite, tudo na medida certa. O resto era fácil, bem fácil. Só não podia parar de mexer... não podia parar de mexer, fosse a panela, fosse a coluna. Mal esperava que enquanto colocasse uma camada sobre outra de recheio percebesse que dentro de si o movimento era inverso: deitava fora as camadas de sedimentos depositados ao longo dos anos em busca de... quê?

A topada com as ruínas soterradas foi inevitável. O primeiro objeto encontrado foi uma calculadora Olivetti que usava para brincar de Banco e de Loja de Brinquedos. Junto à calculadora os papéis de escritório: notas promissórias, fichas de inscrição, vales, recibos, cheques inutilizados, tudo que era burocrático para os adultos era ciranda para o menino. Desde já demonstrava aptidão para as tarefas administrativas! Seguindo o rastro da fita impressa com contas de mentirinha tão importantes, chegou aos jogos sobre cujos tabuleiros passara meses de férias a se entreter. Já achei! Gritava para o pai quando conseguia localizar no mosaico de figuras aquelas que tinha separadamente na mão. Ou então exibia orgulhoso seu Super Trunfo quando a partida o estava apertando.

Seguindo as ruas do Banco Imobiliário e as casas do Jogo da Vida, caminhava para a mais tenra infância em direção ao seu companheiro de aventuras, que não era o Toddynho e sim o urso de pelúcia que carregava consigo para todos os lugares. Olharam-se, não quiseram nem contiveram as manifestações de saudade e abraçaram-se perplexos. Ambos com a mesma idade: ele tão homem, o urso tão gasto. "Não me esqueça num canto qualquer" - ouviu sairem da boca de Pingo os versos da cantiga de Toquinho. Sentiu-se culpado. Pingo lhe sorriu. Não lhe culpava. Era como acontecia nesse globo imerso no tempo-espaço. Enquanto aquele passa, este se preenche com memórias e mais memórias, das quais algumas se empoleiram sobre outras matando-as. E ele, Pingo, estava fadado ao esquecimento, à substituição, ao soterramento por outros companheiros, outras aventuras, outras emoções.

Como no Teatro Mágico, Pingo abriu-lhe as portas e deixou-o à vontade."Só para loucos", murmurou-lhe ao pé do ouvido.

Naquele momento carrinhos match-box cruzaram por sua frente num grande estampido. Sua Ferrari F40 de controle remoto irrompeu num estardalhaço e estacionou bem em sua frente, convidando-o para uma volta pelos circuitos do Pense Bem. Partiram, em seguida, para as notas musicais de seu primeiro teclado eletrônico e ali o deixou a ouvir as músicas que um dia soubera tocar. Mas, espere! Essa música não vinha da eletrola posta sobre a prateleira da estante? Não era a voz de Harry Belafonte? E esses braços não eram de seu pai que o pegava para deitá-lo ao seu lado no sofá marrom-café da sala? E ali estava Pingo, a observar tudo, sempre do mesmo jeito, com o mesmo olhar de plástico com o qual olhara o menino em seu primeiro Dia das Crianças.

Mergulhado na vertigem daqueles olhos cor de mel, o menino começou a escutar o toque das ligações no celular. Em verdade era o Jogo da Vida que o chamava para o dinheiro ganho no que antes eram apenas nomes do Banco Imobiliário e para a sorte lançada na roleta das obrigações sociais. Era hora de se despedirem. Cada qual de volta ao seu mundo. Um ao da fantasia, onde não se perde nem se ganha; o outro em direção ao futuro.

Talvez não fosse tão fácil quanto montar uma lasanha, ou como escavar ruínas. Isso ainda iria descobrir. A verdade é que ele estava ali: o menino havia-se feito


HOMEM



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2 comentários:

Manu disse...

Lindo.

sidnei disse...

Lindo,lindo,lindoooooooo!!!!! Fui lendo devagarzinho, saboreando sua poesia aos poucos!!!